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Bira fala sobre a vida, a carreira, os amigos, a música no Brasil e sobre seus trabalhos: o Sexteto e a Cia. Filarmônica de São Paulo – The Beatles Songs |
Ubirajara Penacho dos Reis, o “Bira” do Sexteto do Jô, é tão simpático e divertido quanto demonstra pela televisão. Bira nasceu na Bahia, tem 74 anos, é virginiano, pai de três filhos e está casado há quarenta anos com a mesma mulher, Alzeni – que inclusive estava ao seu lado durante a entrevista, feita no Teatro São Luís, em Uberaba, Minas Gerais.
Iniciou sua carreira na música como cantor, em 1957, quando fazia parte do coral da Universidade Federal da Bahia. O contrabaixo surgiu “aleatoriamente” em sua vida, e em 1967, mudou-se para a cidade de São Paulo, onde começou a tocar profissionalmente.
O baixista está no Sexteto do Jô (grupo que faz parte do Programa do Jô, do apresentador e entrevistador Jô Soares) desde seu início, há quase vinte anos, e é apaixonado pelo que faz, “Pra mim, ser músico é um privilégio”. No programa, ele ficou tão conhecido por sua habilidade musical quanto por seu bom humor e sua risada exagerada e única - além de ser coadjuvante nas piadas de Jô.
Bira apresentou-se em Uberaba como convidado especial da Cia. Filarmônica de São Paulo - The Beatles Songs, em 22 de fevereiro. No show, ele conta a história de algumas músicas da banda mais famosa do mundo, “toca pauzinho”, diverte o público com uma “bolinha saltitante” durante a canção Yesterday, surge no palco dentro de um Yellow Submarine e é “homenageado” pelos outros músicos com um bolo e velinhas em When I’m 64. Mas também emociona ao tocar, em seu próprio baixo, sua canção dos Beatles preferida, The Long and Winding Road. No final do espetáculo, a platéia grita em coro seu nome, enquanto alguns garotos bem jovens faziam sinal de reverência a ele.
Antes da entrevista – feita após uma apresentação ao vivo da Cia. Filarmônica para um jornal televisivo local – já pude perceber que minhas impressões sobre ele estavam certas. Enquanto os músicos preparavam seus instrumentos, Bira observava os mais novos e trocava idéias e conhecimentos musicais com eles.
Ele é sim uma pessoa incrível, carismática, que gosta muito de conversar e contar suas histórias. Bira me contou, muito entusiasmado, sobre os teatros da Grécia e de Sydnei. Além disso, demonstrou ser muito atencioso ao saber que eu tocava contrabaixo, me dando várias dicas sobre captadores e cordas.
Karen Ferraz

Show da Cia. Filarmônica de São Paulo - The Beatles Songs: Bira tocando “pauzinho” em And I love her ...
Karen Ferraz

... e conduzido o canto da platéia com sua “bolinha saltinte” durante a canção Yesterday
Bira, fale um pouco sobre como a música surgiu em sua vida e o porquê do contrabaixo.
O primeiro contato nasceu ainda no curso científico, eu fazia parte do coral dos seminários livres de música da Universidade Federal da Bahia. E eu cantei nesse coral durante um tempo, e foi quando eu tomei conhecimento mesmo do que era música.
Mas antes disso eu já gostava de cantar um pouco e era muito seletivo com as músicas que gostava. Eu comecei a cantar justamente quando surgiu a bossa nova, em 1957 e 58. E eu gostava muito da Bossa Nova, e gosto até hoje, e do Jazz americano, o standard, não o de agora, mas o bem anterior. Era muito mais bonito.
E o contrabaixo surgiu aleatoriamente, um fato que eu não sei nem explicar na minha vida. Eu tinha 23 anos quando comecei a cantar, mas a tocar profissionalmente, foi quando eu vim para São Paulo, em 1967.
Você estudou música ou aprendeu a tocar o instrumento sozinho?
Quando saí da Bahia, eu já tinha deixado de cantar e começado a dar meus primeiros passos como contrabaixista no grupo de um amigo, que já faleceu, chamado Jecinto de Freitas. Quando eu demonstrei que queria tocar contrabaixo ele começou a me ajudar, a me dizer onde estavam as escalas e eu prossegui. Cheguei em São Paulo, fui estudar um pouco, mas o meu professor também sofreu um infarto e morreu, aí eu fui autodidata e segui por mim mesmo, até quando comecei a tocar nos programas do Silvio Santos, na orquestra do Maestro Zezinho.
Karen Ferraz

E quais foram os artistas que influenciaram em seu gosto musical e na sua decisão em seguir a carreira de músico?
Na parte que eu fui cantor, foi quando eu vi dois cantores, um brasileiro e um americano: Wilson Simonal, que pra mim foi o maior cantor de todos os tempos, o maior artista no palco, a voz mais bela e o mais competente dos cantores... e um músico americano, ele era trompetista, chamado Chet Baker. Eu ouvi um disco dele, ele tocando e cantando. E aquele jeito dele cantar, sem colocar muita voz, muita força para cantar, todo maneiro, “cantando como se falasse”, aí me motivou e eu comecei a cantar por isso.
No início você tocava com bandas em casas de show, boates...?
Eu sempre fui músico de orquestra. Vinte anos eu toquei na orquestra do Maestro Zezinho, nos programas do Sílvio Santos, porque era, como diz na gíria do carioca, “a minha praia”, o que eu gostava mesmo era de orquestra.
Por que?
Porque eu gosto de som grande, eu gosto de ouvir tudo o que se passa no palco. Eu não gosto de barulho, eu gosto de som!
E como surgiu o convite para tocar com o Sexteto do Jô, que na verdade começou com o Quarteto?
Eu já fazia parte da orquestra do Silvio Santos, quando em 1988 - eu já trabalhava no Silvio desde 72 - nasceu o Programa do Jô. Eu não estava no Brasil, estava na Grécia, viajando com o grupo Sargentelli e as Mulatas. Foi quando eu retornei da Grécia e tomei conhecimento de que ia começar o Programa do Jô. E da orquestra do Maestro Zezinho foram retirados quatro músicos para fazerem parte do Programa do Jô. E tudo começou no dia 16 de Outubro de 1988.
sextetodojo.com

Durante o programa, o Sexteto toca jazz com o Jô Soares, mas também acompanha convidados de diversos estilos musicais. Além disso, o grupo o grupo é sempre alvo de piadas do apresentador. Como é seu relacionamento com o Jô e com os outros membros do Sexteto?
Nosso relacionamento é bom. Como em qualquer grupamento na vida, marido, mulher, filhos, músicos, médicos... há sempre discussões, aborrecimentos, mas todos nós somos amigos e nos gostamos muito.
Minha amizade com o Jô é uma coisa bem lúdica, porque você só pode fazer aquele trabalho com muito amor, muita alegria... você tem que estar preparado para fazer aquilo e sair da sua casa sem problema nenhum, sem transferi-los para o palco. Mas o meu relacionamento com o Jô é espetacular! É um grande amigo, um grande profissional e não acredito que haja na televisão do Brasil um cara que mais valorize o músico do que o Jô Soares.
Você acha que a música instrumental e os músicos são valorizados no Brasil?
Eu venho repetindo isso há muito tempo. Pela própria formação cultural desse país... o Brasil tem grandes profissionais de música, grandes músicos, mas para o povo brasileiro, o que vale é o cantor. O cantor tem um respeito do público maior que o músico, e isso é do começo do século.
Pra você ver, nos Estados Unidos o que predomina é a música instrumental, porque o americano já teve, desde o começo, bons instrumentos para tocar, o que não teve no Brasil. Agora que temos fábricas de instrumentos no Brasil, e o país está produzindo bons instrumentos, mas até vinte anos atrás não era assim. O músico brasileiro tinha que viver comprando instrumento importado.
Karen Ferraz

Quais foram as experiências mais marcantes em sua carreira e as pessoas com as quais você mais gostou de tocar?
Eu tive a felicidade de trabalhar um ano com o cantor Wilson Simonal. Mas tive grandes amigos, grandes pessoas que me ajudaram na música. O Rubinho, aquele barbudo que tocava no Programa do Jô e que já faleceu, foi um dos caras que mais me ajudou na vida. O maestro Zezinho... foi extraordinária a paciência que ele teve comigo. Jô Soares, meus colegas músicos, como o Osmar, todos eles foram muito pacientes comigo, me deram liberdade para trabalhar.
A minha retribuição é ser pontual, respeitá-los, que é um grande benefício que você faz à música e à essa profissão de músico é ser um cara cuidadoso, pontual e respeitar seus colegas.
Como é o músico Bira?
Eu jamais abri a boca para dizer que fulano é melhor que cicrano.
“Bira, quem é o melhor contrabaixista do Brasil?!”. Eu nunca vou dizer isso!
Desde o dia que eu vi um contrabaixista tocando na rua, em Salónica, na Grécia, um cara sem nome, pode-se dizer, eu vi o cara tocando “daquele” jeito. É muito arriscado dizer que fulano é o melhor do Brasil. Você vira a esquina e tem um tocando melhor do que ele. Então todos os músicos pra mim são excelentes!
Pra mim, ser músico é um privilégio. É abençoado o cara que é músico neste país. E eu digo mais ainda, Deus foi bondoso demais comigo por me dar essa profissão porque eu não poderia ter outra! Primeiro, sou baiano! Segundo, sou preguiçoso! Mas sou preguiçoso por um lado! Eu falo isso porque a preguiça é o mal do baiano. Dizem que baiano com pressa não existe! Mas foi a profissão que Deus me deu e agradeço a ele.
Então você é realizado como pessoa e como músico?
Tudo! Eu sou uma pessoa inquieta, apesar de ser baiano! Não sou ansioso, mas sou perfeccionista, porque sou virginiano. Ou sou virginiano porque sou perfeccionista?! Mas não sou perfeccionista! Sou um pouco até relaxado!
Mas e sua disciplina como músico?!
Sou um homem disciplinado na minha profissão. Eu tenho o maior respeito pela minha profissão. O meu local de trabalho pra mim é sagrado, eu vivo daquilo. Eu não abro precedentes, não toco de graça, ninguém me chama para tocar de graça que eu não vou, porque eu vivo disso. Eu sustento minha família com a música. Eu sou casado com a mesma mulher há quarenta anos, entre namoro, noivado e casamento eu tenho quarenta e sete anos. Tenho três filhos. Eu vivo disso.
Eu parei de gravar porque me magoei com as gravadoras. Você grava hoje é só recebe quarenta e um dias depois.
Você acha que isso acontece em nosso país?
Eu acho. Eu nunca vivi de música em outro lugar, mas eu acho que só no Brasil que existe esse monopólio, o músico gravar hoje e receber quarenta e um dias depois, quando as gravadoras quiserem.
Talvez isso não aconteça por uma falta de união da classe, ou de uma legislação que defenda melhor seus direitos?
Talvez sejamos culpados por isso, o que é uma lástima! Mas é como eu sempre digo, a música instrumental no Brasil nunca esteve em primeiro plano. O Brasil sempre teve o cantor como privilegiado.
Só que este país tem uma das melhores músicas do mundo, que é a Bossa Nova. Os americanos dizem que o Jazz e a Bossa Nova são as melhores músicas do mundo. Mas os brasileiros não.
divulgação

Cia. Filarmônica de São Paulo – The Beatles Songs
Atualmente você é o convidado especial da Cia. Filarmônica The Beatles, que já está em cartaz há cinco anos. Você sempre foi um fã de Beatles?
Quando ouvi pela primeira vez, eu me liguei mais no repertório, nas músicas do que propriamente no grupo. Eu adorei as músicas! Não é que eu não goste do grupo, mas o grupo pra mim era plano secundário. Tanto que esse acervo musical que eles deixarem ao se separarem, para mim, é de um valor extraordinário.
Levando em consideração o sucesso que as músicas dos “quatro garotos de Liverpool” ainda fazem e que o show da Cia. Filarmônica já foi visto por mais de 300 mil pessoas em todo o Brasil, você acredita que existirá outra banda capaz de alcançar tanta popularidade?
Não, musicalmente eu não acredito. O acervo musical Lennon, McCartney, Harrison, Star é extraordinário, ninguém supera isso não. Como grupo musical, talvez, mas como acervo musical eu acho que é imbatível. E esse show é digno de elogios porque não é cover, nem é orquestra. Não é cover porque ele é feito por profissionais, e não é orquestra porque tem cantores. Com esse repertório já são cinco anos em cartaz.•