August de 2010 | edição 72 | ano 8

Entre-vista.

O Rei do Vinil

Em tempos de MP3, Joaquim Cutrim mostra porque tem mais de 700 discos

Camila Fernandes


camilinha10@hotmail.com

O advogado de Niterói Joaquim Martins Cutrim tem 50 anos e pelo menos duas paixões: música e discos de vinil. Sua coleção de discos de vinil começou em 1972, quando tinha apenas 12 anos de idade e hoje reúne cerca de 700 discos. Com a entrada dos CDs no mercado fonográfico, Joaquim foi um dos apreciadores de música que acreditou que a qualidade do áudio seria melhor, e se desfez de 60% da sua coleção. Anos depois, ele se deu conta que preferia o som dos LPs ao dos CDs e, com o propósito de mostrar aos outros a diferença entre as duas mídias, começou a escrever sobre o assuntos em um blog, o Vinil na Veia , o assunto se multiplicou em outros blogs, e hoje Joaquim tem mais de 20 blogs sobre o tema. Confira a entrevista feita pela repórter Camila Oliveira via e-mail:

Arquivo pessoal
”fotocorporentrevista”
Joaquim Cutrim, colecionador de vinis

Para começar, eu queria que você me explicasse o que você vê de especial num disco que não há num CD. Está somente relacionado a qualidade do som, ou tem a ver também a ver com o próprio objeto?
Vejo e escuto. Em um LP existe a beleza de se escutar e de se ver, como você bem falou. O vinil ou LP é um produto complexo, melhor dizendo, um produto composto de vários tipos de arte. Música; a fotografia, ao trazer a foto do cantor ou banda; arte gráfica, quando algum artista é convidado ou pago para elaborar a arte final da capa; literatura, ao trazer depoimentos do próprio artista, declarações poéticas ou mesmo críticas; informação cultural, quando traz a forma como o trabalho foi realizado e as intimidades da rotina do trabalho, a assinatura do cantor, encartes que seguem junto ao vinil como brinde, às vezes um pôster do cantor de 90 cm dobrado ou cantora enfim, trechos literários que podem se referir à história da caminhada da carreira do cantor. Tanta informação e material são impossíveis de caber num CD, por questões de espaço. O tamanho da letra também é imprescindível para estimular a leitura, pois a letra que traz o pequeno encarte do CD é de tamanho 8, diferentemente da letra da capa interna e externa do LP e encartes, que podem ser de diversos tamanhos, 12, 14, 20, etc. Sempre grandes e estimulantes à leitura.

Mas além da qualidade fotográfica já existente e hoje melhor por causa da tecnologia gráfica atual - tendo, inclusive, o LP internacional aumentado sua capa em 1 cm e meio (como o LP Rainbow, Mariah Carey) - ainda temos arte gráfica no próprio vinil, que pode ser colorido e com imagens tanto do cantor quanto outra arte fotográfica, são chamados de Picture Discs. Existem também vinis mais simples, apenas coloridos, vermelho, verde, amarelo, etc. E os pretos de capa simples, mas com fotografias de 30 cm.
Esta é a parte “objeto” do produto. Ou seja, aquilo que diz respeito a possuir um objeto bonito, como quem, por exemplo, escolhe um carro.
Agora, em relação à qualidade sonora. O som que é registrado mecanicamente em forma de sulcos dentro de um LP é exatamente o espelho do som real tocado pela banda no momento da gravação. Isso porque, cabe lembrar, que os nossos sentidos humanos são todos analógicos, como a audição, a visão, olfato, tato e paladar. No caso da preferência pelo LP, visão e audição são os envolvidos. E o que isso tem a ver? É que a qualidade sonora, numa gravação de um LP, o som que entra pelo microfone é analógico; o som que sai do microfone é analógico; e se a gravação utilizar compressores analógicos e nenhum componente digital até o final do processo, você terá gravado dentro de um LP UM ESPELHO DO SOM REAL.

O que está, atualmente, na vanguarda de quem prefere sons sem interferências digitais – especialmente as bandas de Rock e isso é mais comum em sociedades ricas e mais conscientes, como as do Japão, EUA e Europa. Ou seja, a voz do cantor e instrumentos que é captada e transformada em sinal elétrico pelo microfone será registrada de maneira análoga ao som real que a banda produziu. E isso significa qualidade e fidelidade. Sem cortes e sem compressão, como os erros de quantização e outros problemas inerentes à digitalização.
Resumindo, o que há de especial em um LP está relacionado tanto com as qualidades do objeto composto de fotografia, literatura, informação e arte, quanto à qualidade sonora, esta, indissociavelmente ligada ao processo analógico de gravação e, mesmo que haja presença de equipamentos digitais na gravação, a reprodução de um LP é sempre analógica, pois a captura e amplificação de sinais registrados no LP é e será sempre analógica, da agulha até a caixa de som, passando pelo amplificador, o que não acontece com equipamento que toca mídia digital. E isso dá uma enorme vantagem sonora para o LP.

Qual foi seu primeiro disco?
O compacto de Roberta Flack com a música-sucesso “Killing me Softly with his song” foi o meu primeiro vinil.

Você ainda o possui?
Não originalmente. Eu o perdi, mas o substituí por um idêntico, da mesma data de gravação, impecável de capa e áudio. Ainda tenho discos compactos que adquiri com 12 anos de idade (1972), como “Do You Wanna Dance e “We Said Goodbye” (RCA Victor), de Dave Maclean; Rock The Boat (Idem), do The Hues Corporation e “My Mistake”, de Diana Ross e Marvin Gaye, da Top Tape.

Você tem algum disco que considera favorito?
Sim, um LP de Gigliola Cinqüetti, de 1972, que traz a maravilhosa música “Gira L’Amore”.

Como você guarda seus discos? Eles têm um lugar especial?
Dentro de um baú de mogno com dobradiças douradas, regularmente ventilado e os mais escutados, em um baú também retangular, mas de vidro, embaixo do “rack” de som, de seis rodas, pesando mais de 100 kg de equipamentos.

Quantos discos você tem?
Em torno de 700. Recebo alguns, mas nem com todos fico. Também compro importados e em “sebo”, intactos, classificação “ouro”, pois os classifico em ouro e prata. Ouro é quando o disco está em perfeitíssimas condições de som, não tem estalinhos ou chiadinhos. Prata é quando o áudio está excelente mas tem aqui ou ali um chiadinho, acontece quando o LP tem leves arranhões, muito superficiais. Não prejudica a cristalinidade da voz e demais agudos. E nem graves.

Você tem discos considerados raros?
Sim. Tenho um disco de Maria Bethânia que nem o fã clube oficial dela tem. É o LP “Origens”, lançado em 1968-1969, pela EMI-Odeon, Estéreo, número de série 31C 052422118, no lado “A” traz as músicas Café Soçaite, Carinhoso, Ele Falava Nisso Todo Dia, Marina, Camisa Listrada e Ponto de Oxossi. Esse disco foi depois relançado em 1984, com o mesmo nome. Há outros, como o “Panis Et Circences”, de Gil e Tropicália, com Rita Lee na capa aos 16 anos mais ou menos. Mas o “Origens” é o mais raro. Ah, e a última entrevista em compacto de John Lennon, 4 horas antes de morrer (Editora Som Três).

Tem algum LP que você gostaria muito de ter, mas não encontra, ou só encontra por um preço muito alto?
Sim, é um LP que foi gravado direto da banda para a máquina de corte DMM Neumann VMS-80 da Pauler Acoustics Alemã, sem cortes ou edições. Ou seja, a banda não podia errar, pois a gravação era direta do “ao Vivo” não ficando armazenada em nenhum tipo de mídia máster para ser editada ou equalizada! O nome deste disco é Bassface Swing Trio.

Por que você acha que o Brasil trocou os LPs por CDs com mais facilidade que os outros países?
É uma pergunta complexa. Mas vou tentar responder. Primeiro, não houve essa suposta troca, houve apenas uma diminuição, digamos, acomodação democrática de gosto. Justamente na época da LP, o Brasil vivia a sua pior inflação e a diferença do dólar para o cruzeiro era alta, e os melhores equipamentos estavam no exterior. O Brasil não tinha tecnologia barata e boa para fabricar bons toca-discos ou pelo menos toca-discos corretamente feitos de acordo com as normas de qualidade; a matéria-prima “PVC” (Poli Cloreto de Vinila) que é usada na confecção do vinil era importada e cara para nós, em função do dólar. E como isto repercutia na facilidade que o CD foi aceito e disseminado? A indústria para sobreviver tinha que fabricar tocar discos baratos, com corpo e pratos de plástico, braços de toca-discos leves e vagabundos e sem regulagem.

Tinha que fabricar também LPs com maior número de músicas possível – e isso sacrificava a arte – a música era diminuída – A gramatura ou quantidade de material PVC na fabricação do LP tinha que ser pequena e o resultado disso eram LPs leves, flexíveis, de sulcos rasos, portanto, de baixa qualidade. Muitos eram feitos com sobras de rebarbas de prensagens de vinis que usavam PVC virgem e isso tudo repercutia na qualidade final da dupla LP x Toca-Disco. Além disso, trazer LPs importados ou másteres importadas era inviável economicamente e os melhores equipamentos de gravação eram importados, as fitas máster também, tudo em dólar, o que contribuía fatalmente para que os LPs nacionais fossem ruins assim como os toca-discos. Além do mais, não existia a “cultura ISO” no Brasil, as empresas não se preocupavam com os cuidados científicos com o LP e não repassavam regras de uso ao consumidor. Enquanto isso, no Japão, EUA e Europa, por exemplo, a sociedade tinha LPs com gramatura de 160, 180 e 200 g, - os melhores- e toca-discos onde era básico o prato de alumínio e o braço de metal pesado, denominado médio, com todo seus ajustes e a cultura informativa de uso e ajuste correto. Ou seja, eles tinham os melhores vinis, toca-discos e as melhores informações, já que a quantidade de equipamentos de boa qualidade distribuída permitia a manutenção de uma cultura de qualidade sonora que nunca sequer foi sonhada no Brasil.

Lá no exterior, tanto toca-discos quanto vinis e cápsulas evoluíram, o que pode ser constatado no site www.needledoctor.com . Agora vai ficar fácil de explicar para você: Com toda essa má qualidade derramada para o povão brasileiro, som de LP rachado, o CD e o toca-CD quando chegaram e logo com o plano real estabelecido, ficaram acessíveis a compra tanto de CDs quanto de toca CDs, pois no começo tanto CD e toca CD eram caros. Quando Itamar Franco emparelhou o dólar com o real, o povo brasileiro “abandonou” os equipamentos horríveis, o som rachado e com o dólar equivalente, a tecnologia “sem chiados e rachados” evidentemente foi a preferida e obviamente lógica.
Só para você ter uma idéia, um CD pode durar 1 ano, 2 anos, 5 anos, 10 ou 20... Isso vai depender. E estamos falando de CDs extremamente bem cuidados!

Você acha que o LP pode voltar à "moda"?
Não será uma moda, será uma opção mais cara por fidelidade, qualidade fotográfica e durabilidade indeterminada, pois um LP é dado pelos cientistas como de durabilidade indeterminada em termos de som e pelos químicos, como de degradação total somente ao cabo de 500 anos. Além da certeza absoluta de não estar comprando um produto pirateado. Não será para todos os bolsos, ouvidos e culturas – Literária, Fotográfica, artística e sonora - e nem para os que não podem comprar os equipamentos que possam extrair o melhor som do LP.

Certamente o LP não será a mídia determinante no mercado, por falta de cultura técnica da maioria da população, educação, etc. E por falta de interesse em fotografia e literatura, além na falta de cultura no que diz respeito à percepção musical. Além do mais, com a volta do LP, dos amplificadores valvulados de altíssima qualidade e preço, acabou-se a DITADURA DIGITAL e estabeleceu-se uma verdadeira democracia em matéria de som, de áudio. O que eu quero escutar? Som digital ou som analógico (Todo som na natureza só é analógico). Isso é democracia, escolha cultural. Nada contra iPod, nem contra mp3. (Um horror este último)

A reativação da Polysombrasil, fábrica de discos, comprada pela Deck Discos poderia colaborar para isso?
Evidente. João Augusto está envidando todos os esforços suficientes para recuperar a indústria da Polysombrasil com a melhor qualidade possível para a produção de vinis no Brasil.

Você acredita que os discos que serão fabricados serão comprados pela população em geral, ou somente pelos colecionadores de discos?
É difícil responder a esta questão. O Brasil é um país de muitas surpresas! Mas acredito. É importante ressaltar que no site submarino já existe uma oferta de 700 vinis importados para diversos gostos, compráveis por cartão de crédito e boleto bancário.

Você acha que os colecionadores de discos tem um perfil definido, ou tem representantes em todas as idades e gostos musicais?
Tem representantes em todas as idades e gostos musicais; conheço garotos de 14 e anos que colecionam vinis entendem do assunto muito mais que certos adultos e admiradores de 80 anos.

Quando surgiu o CD você esperava que ele fosse melhor que o LP?
Esperava sim. Tanto que desfiz-me de 60% da minha coleção. Mas não tinha noção da qualidade técnica do LP e aquilo que perderia com a sua ausência; além do completo desconhecimento dos excelentes toca-discos e LPs estrangeiros existentes lá fora. E achava que me acostumaria com as pequenas fotografias de CDs em suas letras de tamanho 8. E não passava pela minha cabeça que um CD poderia oxidar, “morrer” e que a leitora de um tocador de CD durasse tão pouco. E que não valeria a pena trocá-la, pois ela é 70% do preço de um na loja. Surpreendi-me ser um tocador de CD algo descartável que você trocaria com cinco ou dez anos no máximo, coisa que não acontece de maneira nenhum com toca-discos tipo direct-drive (DD) onde a durabilidade é indeterminada,em 95% dos casos. Basta trocar uma agulha que pode ir de 10 reais a 50 reais, em média.

Você se lembra de como se sentiu quando soube que os LPs parariam de ser gravados?
Senti-me bem e orgulhoso como qualquer ignorante sem cultura técnica da época. Depois de 15 anos que vendi LPs importantes da minha coleção, como a coleção completa de Madonna, eu me senti enganado pela indústria e fervorosamente iniciei uma campanha de conscientização com a criação do meu blog http://vinilnaveia.blogspot.com alertando das farsas das “fáceis” e mentirosas vantagem digitais. E alertei principalmente que música se escuta com o ouvido, e não com as mãos, sendo inútil a questão da praticidade para quem quer ouvir som de qualidade. Sofá, silêncio e concentração são indispensáveis. Ouvir em um carro é distração, não audição.

Como você faz para ouvir bandas que não lançam LPs no Brasil, você compra o CD, importa o LP, quando é possível, ou prefere escutar no computador?
No computador jamais escuto quando quero me emocionar; apenas distrair-me. Quando quero e escutar o espectro de áudio completo, é Pioneer 949A, caixas de 15” e sofá. Minhas caixas tem três canais, médios de domo de 150 watts e graves de 15 polegadas.

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