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Aos 80 anos dona Ester confessa ser uma mulher realizada, ter tudo de que precisa, e não largar tão cedo seu carrinho de cachorro-quente |
Laís Montagnana

As mão ágeis preparam cachorro-quente há mais de 60 anos.
Desde que me recordo do cruzamento de uma das principais avenidas de Mogi Mirim, a “22 de outubro” com a rua “Marciliano”, tenho na lembrança a figura de uma senhora de avental branco ao lado de seu carrinho de cachorro-quente. E mal cheguei na tal esquina que Ester Leite da Silva já me mostrava a lucidez e agilidade dos seus 80 anos bem vividos.
As mãos marcadas de quem teve que pegar no batente desde cedo me apresentaram com orgulho aos raros tomatinhos chineses que ela própria plantou na sua horta do seu quintal e trouxe para dar à vizinha. Cuidadosamente essas mesmas mãos vestiram o já gasto avental branco e a touca de cabelo, tudo isso em nome da higiene na hora de fazer os cachorros-quentes que há mais de 60 anos conquistam fregueses.
Nascida na cidade Arthur Nogueira, filha do meio entre sete irmãos, dona Ester, como é chamada, “já fez de tudo nessa vida”: já trabalhou na roça, já foi lavadeira, engomadeira... Foram tantas as responsabilidades que acabaram afastando-a da escola, mas ela ainda teve fôlego para, aos 60 anos de idade, ir a uma sala de aula para aprender a ler e a escrever.
Em Mogi Mirim dona Ester fincou suas raízes. Mudou-se para o município logo que se casou com seu “primeiro e verdadeiro amor”. Os olhos ternos me contam da paixão a primeira vista que, apesar de seu marido ter falecido há 20 anos, faz com que dona Ester não queira se interessar por mais ninguém. Ela ainda revela que tem um admirador que há 18 anos tenta lhe fazer agrados, mas com firmeza na voz me ensina que “casar e morrer é só uma vez”.
Em Mogi Mirim a dona Ester também se tornou ícone, afinal todos se lembram da senhora do carrinho de cachorro-quente, e é essa senhora que perde as contas de quantas entrevistas já deu.
Laís Montagnana

“Tenho tudo de que preciso”
Há quanto tempo a senhora vende cachorro-quente nesse ponto?
Faz mais de 60 anos que faço cachorro-quente e 40 anos que fixei meu ponto aqui. Quando comecei era muito comum a elite da cidade fazer festas grandes, festas de aniversário e chamavam o meu marido e eu para levarmos o nosso carrinho e trabalharmos nas festas. Um tempo depois o meu marido escolheu esse ponto para se fixar e depois que ele morreu, há 20 anos, eu assumi o trabalho, sozinha.
Quantos cachorros-quentes a senhora vende por dia?
Agora não chegam nem a 10 cachorros-quentes! Há uns 10 anos eu vendia bem, mas agora com a crise pegando todo mundo tenho vendido pouco! Mas eu ainda tenho os meus fregueses fixos e trabalho mesmo para não ficar parada, não pode é parar!
A senhora não tem vontade de se aposentar e descansar?
Não tenho não! Meus filhos até brigam comigo, falam para eu parar, mas eu adoro o que faço! Sabe, sou muito querida por aqui! Quando chove, os meninos aqui do bar ao lado sempre vêm me buscar pra colocar meu carrinho dentro da cobertura, cumprimento todo mundo, converso com todos! Sou que nem figurinha de almanaque, todo mundo gosta de mim!
A senhora tem algum sonho que gostaria de realizar?
Eu não tenho não, eu tinha o sonho de ter uma casa própria, mas isso o meu marido deixou pra mim, então eu não tenho mais nenhum sonho não. Eu sou feliz, eu tenho tudo de que preciso.
Quais são as maiores dificuldades do seu trabalho?
Acho que dificuldade seria o clima mesmo, porque quando chove não dá pra eu trabalhar e também um pouco do descaso da prefeitura com o trabalhador ambulante.
E qual é a sua relação com a prefeitura?
Eu sou cadastrada na prefeitura e pago imposto. Em troca posso permanecer no meu ponto embora não receba nenhum benefício como auxílio médico ou aposentadoria. Acho que estou certa de pagar esse imposto todo o ano porque eu não quero receber esmola da prefeitura. Eu já falei, e falo na cara deles mesmo! Uma vez o prefeito veio me perguntar o que eu estava achando da administração dele e eu disse: “Não estou achando nada, o senhor não faz nada!”. Eles ficam empurrando a gente de um lado pro outro, não tratam certo o trabalhador informal, querem que a gente fique andando de um lado para o outro, mas eu, uma mulher com 80 anos nas costas, não tenho condições de ficar empurrando meu carrinho por aí assim.
Laís Montagnana

Dona Ester prepara o seu cachorro-quente “original”.
Me conta qual é o segredo do seu cachorro-quente que faz sucesso há mais de 60 anos?
Ahhh... Acho que isso acontece porque eu faço o cachorro-quente original! Uso os ingredientes: Pão, salsicha, catchup, mostarda, maionese, milho, batata palha e o meu molho de vinagrete! Esse o pessoal também adora!